quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012

O meu relato

Ultimamente tenho me interessado mais pelas grávidas, pela humanização do parto, parto ativo, doulas, e muitas outras coisas que antes nem sabia. Para a Carmen nascer, eu me preparei. Não digo isso com a prepotência ou arrogância que a frase aparenta ter, mas por ter sido em um momento adverso, não tinha muita informação sobre as coisas (nenhuma informação é o termo mais adequado no meu caso).
Durante toda a gravidez, busquei muitas leituras, mais técnicas, menos humanizadas, pois no início, não entendia muito bem. Não fazia questão de parto normal, e fazia questão de ter minha médica, e um quarto só para mim.

Tinha um plano de saúde, que foi contratado em novembro, mesmo mês em que fiquei grávida. Só fiquei sabendo da gravidez, no final de dezembro... e aí começou minha insegurança a respeito do processo que estava prestes a iniciar: o meu recomeço de vida.

Eu sempre tive uma médica de confiança, que por sinal foi minha obstetra, e a tinha como referência para minha experiência no parto. Essa era minha única certeza, a minha médica. O tempo da gravidez foi passando, e eu lia todos os sábados, junto ao pai da Carmen, as atualizações da gravidez. Ele no início, não entendia muito bem a minha sede por conhecimento, mas eu sabia que devia me preparar melhor, pois era leiga no assunto maternidade. E mesmo assim, lia em voz alta, a cada semana, seu desenvolvimento. Sabia, de acordo com as semanas da gestação, cada etapa evolutiva da minha criança, e era minha forma de estar ativa com seu desenvolvimento, ao menos por saber como estavam as coisas aqui dentro. A minha contribuição era a de nutrir, a de provera vida a ela... e ao ler o que acontecia, me sentia um pouco mais participativa na vida dela.

Minha expectativa era a mais tradicionalista possível: que a minha filha nascesse no mesmo lugar que nasci, com a mesma médica... coisas que hoje em dia, eu dou graças pelos caminhos que a vida segue. Tentamos acertar a tal carência, pedindo um plano de saúde pelo trabalho do Cris, tentando comprar a carência no meu plano, pesquisando formas de parcelamento nas maternidades particulares de Curitiba...
Nada saiu como o planejado, pois nós dois colocamos no papel, que iriam nos cobrar por um serviço semelhante ao hospital público, e eu não teria certeza de como seria meu parto. A essa altura (15 a 20 semanas de gravidez), eu já tinha decidido pelo parto normal.

Fui a minha consulta rotineira com minha médica, e estava com 24 semanas. E essa consulta foi o clic que faltava: Olha Ju, você tem a tendencia a fazer uma cesária, por conta do tamanho da sua bacia, que desfavorece o PN... Eu surtei literalmente. Me explica, como alguem pode diagnosticar algo assim, com tanta antecedência? Doutora, eu tenho metade da gravidez ainda.. quem sabe? E foi assim que decidi que nao fazia questão de mais nada de médica, de acompanhamento exclusivo, para no final das contas eu me encaminhar para algo que não gostaria. Eu queria o tal parto normal, mesmo sem saber o que isso acarretaria. Sou mamífera, ora bolas.

A novela de hospitais e médicos, planos de saúde e tudo o mais, finalizou quando ouvimos depoimentos de pessoas que tiveram pelo SUS, através do Mãe Curitibana. Fui até o posto de saúde que sou filiada, e me indicaram a Vitor F do Amaral, pedi para visitar, e ter o feeling de uma maternidade que é referencia em partos humanizados, e aleitamento materno, e a referência em Curitiba em maternidades públicas. Fui fazer a visita, eu e minha mãe. Lá nos deram uma palestra sobre a maternidade, mas quando a platéia (mães ansiosas e sedentas por informações) começou a lançar perguntas, eu senti uma insegurança que me deixou preocupada... Não queria que a Carmen passasse por coisas desnecessárias, pois senti um despreparo nas pessoas que normalmente deveriam nos informar.. e nem as coisas mais básicas eles conseguiam sanar..

Não gostei da estrutura interna, e me senti na velha estrutura... que abrigava mulheres que ficavam ali para terem seus bebês escondido de suas famílias tradicionalistas... E me dirigi a Maternidade do Hospital do Trabalhador... eu e o Cris nos sentimos acolhidos naquele lugar, e o que posso dizer é que quando tem o brilho, e você acredita, o universo dá um jeito de fazer o melhor pra você..


Solicitei a troca da maternidade, por indicação de um amigo, que participou ativamente do parto de sua filha... Quando questionei no posto, me relataram coisas horríveis, até mesmo crianças que morreram por conta da inexperiencia dos que faziam os partos, os residentes. Mas mesmo assim fui, e troquei. Fizemos o curso de pais, mesmo com jogos do Coritiba no meio do caminho, correria pra ir pro Couto Pereira na final da Copa do Brasil...


Mas o curso foi de extrema importância... lá eu percebi que o termo humanizado fazia sentido para a mulher... treinamos na bola, fizemos as massagens, respiração tradicional, e muitos conselhos..

E as semanas foram passando... muita ansiedade e mais um pouco ainda. Tirei minha licença maternidade um mês antes, para descansar melhor e me preparar para a chegada da Carmen..
E se completaram as 40 semanas, e minha pequena, cadê?
Não estava preocupada, apesar da ansiedade de todos ao redor... os dias começaram a se arrastar. Alongamentos diários, posições de yoga, respiração controlada, banhos quentes, muitas atividades, descanso pleno... e a Carmen precisou de uma prorrogação para a sua saída.
41 semanas e eu preocupada... +1...

No sábado, dia 30 de julho, penúltimo dia de férias do Cris (claro que isso ia acontecer... as férias acabando, e ela vindo depois) nosso dia foi tranquilo, passamos em casa, assistindo nosso futebol, almoçando, essa rotina que tinhamos enquanto casal... E durante o dia saiu o tal tampão, e minha ansiedade começou a se transformar em alívio, misturado com o receio do desconhecido. E as nove da noite, tive minha primeira contração... me assustei, porque logo a primeira já se instalou pelo corpo inteiro..

É chegou a hora de conhecer você... é o que pensava a todo momento.

E elas começaram esparsadas, e depois regulares, e depois demoravam novamente... E foi uma madrugada longa... soltei o corpo, entendi o processo, e respirava para aliviar... me movimentava, fazia os exercícios que tanto li e esperei fazer no momento certo.. Mas como ainda estavam com intervalos grandes, decidimos ir deitar, para relaxar o corpo, e para o pai descansar, pois no dia seguinte, ele já sabia mentalmente do nosso plano de parto sem planejarmos nada. As cinco da manhã tudo pegou ritmo... 10 em 10... 7 em 7... E as 8 da manhã , quando chegou o esperado 5 em 5 durante uma hora, olhei pra ele, pronta... e ele que acompanhou tudo, sabia que era o momento. Nos preparamos, banho tomado, com uma vitamina de banana nas mãos, uma chuva forte lá fora, malas na mão e saímos...

Pegamos um taxi, e chegamos rápido ao hospital. Com os documentos preenchidos, podíamos entrar...
Entrei na salinha de exames, com várias pessoas dentro, várias coisas acontecendo, um senhor de cabelos brancos me examinou e disse que estava com 4 de dilataçao, e que já ficaria ali. Coloquei a roupa do hospital, nada feminina, nada prática e nada nova... bege. Você é obrigada a ficar nua, pois está nas salas de pré parto, com algo que não cobre seu corpo. Isso é algo que tira um pouco do brilho do hospital, pois eles tem alguns funcionários exemplares, com um ótimo atendimento, porém com a estrutura defasada... Não tinha vagas nas salas de pré parto, e eu fui acomodada numa maca, e o pai não pode permanecer ali, a principio, pois tinham 3 mulheres, e uma delas estava coroando... Eu não queria ficar sentada, deitada na maca... levantei, coloquei meu casaco e saí dali, fui andar com o Cris, por onde era possível, para que as contrações fossem mais amenas... Das salas de pré parto, só se ouvia mulheres gemendo, outras gritando, outras em silencio que aguardavam sua cesária... Aquele ambiente não era pra mim, eu já sabia das fases do parto, já tinha lido muito, mas não tinha lido que naquele mesmo ambiente teriam mulheres que não conheciam seu corpo, nem o processo que estavam passando...

Depois do almoço, uma cama me foi liberada e finalmente pude ter a companhia que precisava. A essas horas eu já mostrava sinais de cansaço e fraqueza... me faltava alimento. Precisava comer, mas eles recomendam o jejum... para mim foi pior, pois enfraqueci nesse processo que exige energia de sobra da mulher.. Em um determinado momento, comecei a passar mal, e precisaram me colocar no soro, pois jah estava fraca... entrei literalmente em desespero, pois me sentia presa com algo na minha veia, e me lembrei muito do meu pai naquele momento, foram minutos intensos, que só minha mãe conseguiu lidar...
E mais duas horas se passaram, já estava com 8 de dilatação... As 14h00 tinha os 10 cm, e meu coração disparou, pelo sentimento de desconhecido... é o nosso momento chegando...

Nesse meio tempo, o médico que ministrava os cursos estava de plantão, e eu conversei com ele, para ver se podia ser ele, o responsável médico, para acompanhar o nascimento da Carmen, e com sua resposta positiva me aliviei... Ele voltou a minha cama as 16h45 para estourar a bolsa, e me disse: Volto daqui a quinze minutos para levar vocês para a sala de parto.

Os quinze minutos mais demorados, mas aproveitei para continuar o trabalho de parto na bola suíça, igual fizemos no curso... e chegou o momento... Fui andando até a sala de parto, deitei na cama e ouvi: Até as 18h00 nasce...

Estava fraca, e nervosa.... minhas contrações perderam o ritmo, e eu estava sem muita força para auxiliar a Carmen... já havia tacado até um pano sem querer no rosto do médico, e não conseguia mais empurrar...
Nesse momento só lembro de falar: eu não vou conseguir. Olhei pro lado e vi a expressão de medo no rosto do Cris, que me dizia pra ficar quieta, porque eu era capaz... e tentei mais três vezes, mas não conseguia forças... O médico auxiliou, e constatou que a Carmen estava com o rosto e corpo virados ao contrário, o que dificultou um pouco mais.

Eu já não sabia o que fazer, quase pedindo para que me puxassem ao contrário, pois me frustrei com a falta de força... Nesse momento eu parei e rezei uma ave maria, quase aos berros, e gritei vem Carmen! Vem filha! Vem! E finalmente ela chegou, as 18h01 do dia 31 de julho... segundo o Cris, um avatarzinho, pela cor que tinha quando saiu...

Ela ficou na minha barriga, e agora era diferente, pois eu a via... nitidamente! Pequena, e cabeluda...

E a levaram... limparam, e me trouxeram novamente... nesse momento eu me senti completa. Nós três... ali.

Sim, eu pude ter minha filha normalmente... precisei de ajuda, mas fui responsável pelo nascimento dela, ali... ativamente! Esse é um sentimento inexplicável, que une mãe e filho de uma forma especial... Foi delicioso poder ver, que ela existia mesmo... que era ela, a minha pequena... o meu coração fora do corpo.

Enquanto costuraram o que lascerou e foi cortado no parto, a levaram para conhecer o mundo... a minha familia estava ali, para recebê-la. Depois eu saí, e fiquei aguardando a Carmen, e estava exausta, todos falavam comigo, e eu mal respondia... Mas naquele mesmo momento me trouxeram ela, e não nos separamos mais.
É a minha energia, é a minha vida...